Histórias de Moradores do Bairro Aclimação

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores do bairro da Aclimação.

História da Moradora: Tatiana Donato Trevisan
Local: São Paulo
Publicado em: 09/11/2014




História: Eu gosto de buscar a natureza e resgatar minha essência


Sinopse:

Tatiana nasceu em São Paulo e morou a maior parte da vida no bairro da Aclimação, mas era em Atibaia que tinha liberdade para aproveitar a infância e adolescência. Muito ligada à natureza e meio ambiente, escolheu ser bióloga. Fez vestibular na USP e passou. No segundo ano de faculdade engravidou do seu filho Lucas. Como a vida não para, logo ela concluiu o curso, conciliando estudos, trabalho e maternidade.

História

Meu nome é Tatiana Donato Trevisan, eu nasci em São Paulo no dia 13 de setembro de 1979. Meus pais chamam Antônio Domingos Trevisan e Elizabeth Donato Trevisan. Minha mãe é dona de casa, cuidou muito bem da gente, e agora cuida dos netos. O meu pai ele é industrial, ele tem uma pequena indústria de plástico injetável. O nome dos meus avós maternos é Alberto Donato e Gioconda Cossimo Donato. O dos meus avós paternos eu não sei, porque eles abandonaram meu pai quando ele tinha 9 anos de idade. Então na verdade eu até sei, é Milan, e a mãe dele acho que é Leonor, mas eu não faço nem muita questão de saber. Tenho duas irmãs: Priscila, a mais velha, e Fabiola, a do meio, eu sou a mais nova.

Ascendência - Essa história é engraçada porque é da Itália, mas a minha bisavó que eu conheci ela era do norte da Itália, era bem branquinha, e aí eles contam, que eu não conheci, que o meu bisavô era do sul da Itália, então ele era bem moreno, dos mouros. E o pai dessa minha bisavó ele tinha mina, não lembro do quê, na Itália, e a mina desabou, eles tiveram que sair fugidos da Itália, e essa minha bisavó já nasceu aqui. Mas eu sei que ela casou com meu bisavô, que era do sul da Itália, e os pais dela não aceitaram, porque como ele era muito moreno e ela era do norte, sangue azul... E eu sou morena assim, eu conto essa história porque eu sou bem morena por conta dele, né, que era do sul da Itália, bem dos mouros. Então eu tenho essa descendência italiana. E da parte do meu pai eu sei que tem espanhol também. Eu conheci a minha bisavó por parte do meu pai, a gente chamava de “voelita”, ela falava espanhol, era bem da Espanha, sangue mais quente.

Aclimação - Eu morei na Aclimação, depois eu fui um pouco pra Vila Mariana na adolescência, depois quando eu casei eu voltei pra Aclimação. Eu nunca andei muito na rua, minha mãe, acho, que sempre teve muito medo, e ela como não trabalhava, então ela conseguia levar e buscar a gente pra tudo que era canto. Eu tive muito pouca vivência de rua mesmo. A vivência que eu tive de rua era no interior. No parque eu ia, ia dar comida, é verdade, ia dar comida aos patinhos. Minha irmã uma vez caiu no lago. Minha vó levava a gente bastante no Parque da Aclimação, meu tio também, a gente ia, ficava dando pão pras pombas. Hoje eu luto contra as pombas, mas na época a gente ia dar migalhas pras pombas e pros peixinhos, pros patos. Eu ia bastante. E agora, hoje, eu ainda vou também.

Infância em Atibaia - Meus avós, por parte da minha mãe compraram uma casa em Atibaia, que é bem pertinho. E era uma casa com muitos quartos, tinha quarto para cada um dos filhos do meu avô, da minha avó, meus tios. E a gente ia pra lá todo fim de semana, passava os meses de férias todos. Então realmente a minha infância eu passei toda lá. A casa tem acho que desde que eu tinha, dois, três anos. Eram tantas pessoas na casa, chegava vez de ter 40 pessoas na casa, tinha que fazer almoço pra toda essa gente, então elas ficavam todas na cozinha, a cozinha tinha travessa de bife à milanesa pra fritar, era uma loucura.

Em Atibaia a gente ficava muito solto, então a gente jogava muita bola, brincava muito de esconde-esconde à noite na pracinha, pega-pega. A gente andou muito de bicicleta, carrinho de rolimã, até espingardinha de chumbo teve lá, tinha tudo, então foi bem na rua mesmo. Depois a gente ganhou mobilete. Então eu lembro eu comecei a dirigir mobilete supercedo, com 8 anos, eu nem alcançava. Eu tinha que pular, então subia correndo, depois no banco, quando acelerava... Um perigo, né? Mas a minha infância foi muito boa. Lembro de muito ir em matinê, lá o carnaval era muito bom. Então na matinê de carnaval, que tinha bloquinho, a gente saía, todo mundo se fantasiava, a gente fazia um bloco enorme de criança.

Lá em Atibaia, tinha a Pedra Grande, a Pedra Grande é uma montanha, que nem uma montanha, e a gente à noite fugia, fingia que estava dormindo pra subir a Pedra Grande, e eles sabiam. Hoje a gente sabe que eles sabiam, mas a gente achava que estava fazendo escondido, a gente sabe que eles fingiam que eles não sabiam. No fundo eles controlavam a gente dentro do possível. Mas aí teve uma vez que a gente tinha um quartinho, era como se fosse um quartinho, a gente chamava de salãozinho de jogos, mas era como se fosse um quartinho com brinquedo, esse era dentro da casa, porque tinha a parte de fora da casa, mas esse era dentro da casa. E a gente começou a brincar com fogo, eu sei que começou a pegar fogo, papelão, uma baita labareda, essa vez a gente tomou uma bela bronca.

Escola - Eu estudei num colégio pequeno até a 8ª série que chama Júlio Pereira Lopes, que minha tia dava aula. Eu gostava da escola, era uma escola pequena, mas eu lembro que tiveram coisas superimportantes pra mim, eu tenho um primo com Síndrome de Down, acho que ele tem 4 anos a mais que eu, o Caio, e ele estudou uma época na minha sala. Eu acho que o que mais ficou pra mim foram o esporte, a família, as amizades.

Daí eu fui estudar no Colégio São Luís no primeiro colegial e daí quando eu estava no final do primeiro colegial... Pra falar a verdade no Colégio São Luís eu também nunca me senti muito em casa, não. E quando eu estava no final do primeiro colegial, eles anunciaram que a gente ia ter aula todos os sábados a partir do segundo colegial, e pra minha família final de semana sempre foi sagrado. E daí eu acabei indo pra FAAP, que minha irmã fazia faculdade na FAAP, minha irmã podia me dar carona, e eu acabei fazendo o segundo e o terceiro colegial na FAAP.

Escolha profissional - Eu pensei por muito tempo que ia fazer Medicina, bastante tempo mesmo. Não sei se pela minha mãe queria muito ter sido médica, mas eu falava que eu queria fazer Medicina porque eu queria ajudar as pessoas. Quando eu acabei o colegial eu morei seis meses na Austrália. E quando eu estava na Austrália eu falava que ainda ia fazer Medicina e tudo, e quando eu voltei pra fazer cursinho, eu comecei a pensar que eu não conseguia, não dava bem com corte, com ponto, eu tomei muito ponto, né, e todas as vezes que eu tomei ponto eu dava um escândalo.

Eu falei: “Gente, não, eu acho que eu posso ajudar as pessoas de outra forma, não é Medicina que é meu campo”. E eu estava lá na sala A de biológicas, do cursinho, ralando. E daí eu decidi que não, que eu queria fazer Biologia, aí já foi uma época, assim, que eu me identifiquei muito com praia mesmo, até hoje eu vou pra praia quase todo final de semana, eu gosto muito. E eu pensei que na verdade eu queria estudar o meio ambiente, porque eu queria de alguma forma trazer um bem pra sociedade mesmo, e que eu ia trazer de outra forma, e daí eu decidi que ia fazer Biologia.

Trajetória - Na minha faculdade que eu encontrei o que eu gosto, que eu gosto de buscar a natureza e resgatar minha essência, minha energia. Eu entrei na faculdade em 1999. Eu prestei Ciências Biológicas na USP, em Santa Catarina e na Unicamp, e eu passei primeiro na USP e depois eu passei em Santa Catarina.

Era meu sonho morar em Florianópolis! Eu quase fui, mas na época eu tinha um namorado em São Paulo, eu já estava na USP, minha amiga disse que a faculdade era melhor. E acabei fazendo em São Paulo a faculdade. Eu engravidei do meu filho no segundo ano da faculdade, que era quando eu estava procurando estágio pra trabalhar com comportamento animal. Eu queria muito trabalhar com comportamento de tubarão no Recife.

Mas em São Paulo não dava e tudo o que eu conseguia pra trabalhar com tubarão em São Paulo era com víscera de tubarão, pedaço do tubarão. Eu falava que eu não queria trabalhar com tubarão morto, então fui trabalhar onde eu poderia trabalhar com comportamento animal. Daí quando eu estava procurando o estágio eu descobri que eu estava grávida do meu filho, eu namorava há três meses na época, e daí a gente decidiu que a gente teria o nosso querido Lucas. Eu continuei cursando a faculdade, tranquei no semestre em que ele nasceu, em abril. Então eu tranquei esse semestre e eu voltei já no outro semestre. Minha mãe me ajudou muito, por isso que eu falo que ela cuida, né? E logo, no outro ano eu já comecei a procurar trabalho. E aí não ia ser comportamento de tubarão, com nada, eu tinha que procurar um trabalho que eu ganhasse dinheiro, né?

E daí o que aconteceu: quando eu comecei a entender que eu poderia procurar estágio que fosse na linha do que eu gostava, eu tinha encontrado um laboratório que trabalhava com ecologia da paisagem, apareceu uma oportunidade de estágio numa multinacional, que na época ia pagar superbem pra ser estágio, e tinha plano de saúde e tudo. E eu lembro que foi tão engraçado, porque eu falei: “Ah, vou participar da entrevista”. Então eu lembro que eu fui fazer a entrevista e o dia que eu passei eu chorava com ele à noite na cama, eu falava: “Eu não queria ter passado”. E acabou que eu fiquei lá, fiquei um ano e meio, mas eu sabia que não era o que eu gostava. Eu sempre soube pelo quê eu era apaixonada. Eu lembro que eu fui fazer a rematrícula na faculdade e daí tinha um papel lá, que era: “Estágio na Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo”.

E daí até outro dia eu estava até contando pro meu filho, eu falo que a Renata foi a primeira mulher que fez muita diferença na minha vida e que tudo que sempre falam que o filho pode atrapalhar a carreira, eu falo que eu acho que no meu caso fez muita diferença, porque eu tenho certeza que um dos motivos que eu consegui aquele estágio, que pra mim foi tão importante mudar de área de trabalho, foi porque eu tinha ele. E eu sempre acabei indo mais rápido até do que as pessoas que eu conhecia atrás das coisas por precisar já me sustentar e tudo. Então foi essa a minha trajetória eu conseguir começar a trilhar no caminho que eu queria mesmo. Quando eu me formei eu acabei trabalhando de autônoma na Secretaria de Meio Ambiente. Daí eu fui remanejada pra outra área da Secretaria e era uma área que trabalhava bastante com avaliação de estudo de impacto ambiental.

E aí eu acabei saindo de lá e indo trabalhar nas obras do trecho sul do Rodoanel, do Mário Covas, da Dersa. Foi uma época que eu cresci muito profissionalmente, porque aí eu tive que coordenar implementação de programas ambientais enormes, assim, plantio de três milhões de árvores. E daí eu comecei a querer trabalhar com mais do que só a parte ambiental, fui me especializar, fiz pós na Fundação Getúlio Vargas em Gestão de Sustentabilidade.

E comecei a entrar na área de sustentabilidade no mundo corporativo. Eu sinto muito hoje que foi o amor pelo meu filho que me fez conseguir muita coisa, depois o amor pelo meu marido que me fez superar muita coisa. Então eu acho que isso é uma das coisas que é das mais importantes pra mim: o quanto a gente precisa prestar atenção e ouvir mais as pessoas, sabe, ter as relações mais baseadas em amor.

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